Varsóvia

“Rever Varsóvia, alegria e tontura. A cidade me acolhe, a cidade concreta, prédios, ruas, parques, palácios, igrejas. Ler, ouvir e falar de novo a língua natal, sim, uma bênção, também certa melancolia. […] Adolescentes algazarram em volta da Sereia, na Praça Rynek Starego Miasta, bem no centro da Cidade Velha. Warszawska Syrenka. Os seios mais parecem músculos, sereia armada, espada e escudo, símbolo da minha Polônia tantas vezes invadida e massacrada. Austríacos, alemães, soviéticos. Agora todos turistas. Ninguém mais que eu conheça, nenhum parente, amigo ou conhecido. Eu caminhava, caminhar é o meu fazer, os nervos contidos. Alguns querem saber quem eu sou. De mim ninguém se lembra, fui cedo, muitos ficaram, se foram. Idosos hoje têm os nomes dos garotos do meu tempo. A um deles indago se Thadeu ainda vive. Ele fecha os olhos como se a recordar, abre-os de novo e responde Eu sou ele, a voz longe, longe. Toco-lhe o rosto e pergunto apenas com os olhos se eu ainda estou vivo.”


(H.A., Vale das ameixas.)