Do pomar

Frases e trechos de livros de Hugo Almeida

  • “Não se exalte, não se desespere. Calma, calma. Respire, respire devagar.”


    (Do conto-título de A vizinha das sete cordas, de H.A.)

  • “O Brasil para mim foi como chegar ao paraíso, um choque bom, terra nova, livre, sem guerra. […] Também tive decepções, coup d’État, uns fracassados, outros vingaram. Tanques nas ruas. A longa ditadura. Lembro Isaías O Senhor viu com indignação que não havia mais justiça. Os roubos, quanto roubo.”


    (Harley/Timo, imigrante polonês, personagem-narrador de Vale das ameixas, de H.A.)

  • “Mentes ardilosas agem em surdina e no escuro em todos os lugares que se possa sonhar.”


    (Narrador de “Influxologia alemã”, conto de A vizinha das sete cordas, de H.A.)

  • “O salão do café lotado. Sento à mesa que resta, ao lado do casal simples, Pedro e Claramélia (“painho juntou o nome de mãinha com o de vó, mas desde menina todo mundo me chama de Tula”, disse no check-in) com o filho (não sei o nome dele), todos felizes, e do outro casal, Wallace e Perpétua, este no contubérnio temporário que a situação exige. Fico entre as duas mesas. Mesmo com o zunzum das conversas, do ruído de talheres, xícaras e pratos, escuto o que dizem.”


    (Início do conto “Duas estrelas”, de A vizinha das sete cordas, de H.A.)

  • “Como adianta o título [Nove, novena], o volume reúne nove narrativas (designação que o autor preferia a conto, pois vai além da história curta tradicional) e evoca a esfera do sagrado, mas não se restringe a isso. Engloba as aflições do homem na Terra e sua inquietação diante do eterno, do mistério, o que ocorre praticamente na obra inteira de Osman Lins. É vasta a simbologia do número nove, desde o mal, o coroamento de esforços, o término de uma criação, até a plenitude.”


    (H.A., “Elos sagradas, laços femininos e amorosos”, apresentação de A voz dos sinos – O sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins.)

  • “Já no tempo de alfaiate, Zacarias, o velho Harley parecia entender a semelhança dessa profissão com a do escritor. Ambos enfrentam a mesma faina, a mesma feliz agonia de trabalhar com fios leves, da memória ou fantasia, e acertar a proporção dos cortes, o ajuste nas dobras e curvas, não exceder nas medidas. Para isso existe a tesoura, existe o ponto. Às vezes as mãos tremem, do escritor, do alfaiate. Texto e terno têm o talhe tênue, o tenso termo. Não adianta ter pressa nem usar tecido mais barato, cai mal no corpo, amassa fácil, fácil e desfia logo. É jogar dinheiro fora. Melhor uma casimira inglesa, coisa garantida. De nada serve agulha perita, se a linha for ordinária. Da mesma forma, só vale a pena escrever histórias bem amarradas – como se diz, rede firme (nunca um laço lasso), para resistir ao tempo. O texto que se quer literário, li não me lembro mais em que autor, deve guardar segredos e ser igual a u’a máquina bem azeitada, que funciona sem ruídos, nunca engrenagem seca, enferrujada, rangendo, ferro com ferro, como se vê tanto por aí, em livros de gente nova e até de autor consagrado (que falta faz um amigo para ler os originais com rigor). Sem esmero, exibe-se o banal. As palavras têm sexo, se atraem. O casamento delas é o que Machado chamava de estilo. Texto é textura, leveza, fluidez. Trabalho de formiga, aranha e abelha. E precisa ter calor, inquietação, dor. O resto é fast-food.”


    (Túlio, personagem e narrador de Vale das ameixas, de H.A.)

  • “Amanheci tonto. Sonhos confusos, desconexos. Colegas professores fora da escola eu a um canto distante diálogo de papagaios camarões gigantes contorcendo-se resistindo ao gelo policiais broncos outros gentis não sei onde eu estava padre de amarelo-fechado em pé numa roda falante como se fosse o treinador de uma equipe de futebol no intervalo enorme pátio coberto de nuvens cinzas. Nada com nada. Depois um banco de madeira que alguém – eu (por quê eu?) – tinha de cuidar noite e dia num parque ou jardim, não sei onde – flores, terra, sujeira, lodo, ninguém podia sentar. Levantei sem saber o dia, que só veio no café: hoje Léa vem almoçar comigo. A lembrança me acendeu, me ascendeu.”


    (Harley/Timo, personagem e narrador de Vale das ameixas, de H.A.)

  • “A mãe não reaparece no sonho. Não conhece quem o visita. É jovem. De beleza pálida. Dario corre meia maratona no asfalto quente. Tinha fôlego, pernas velozes. A pressa regia seus dias. Suado, cai-não-cai, no pelotão do meio, recebe no rosto o tecido alvo, macio. Que dedos suaves. Ele não chega a ver o que deixou no pano. Sorri para ela e segue na vacilante marcha. A jovem fica extasiada com o que tem nas mãos.”


    (Do conto “E depois desse desterro?”, A vizinha das sete cordas, de H.A.)