Frases e trechos de livros de Hugo Almeida
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“Nancy e eu gostamos de subir até o topo e vasculhar o horizonte, distante ou próximo, com binóculos, tenho dois. As praias coloridas na cidade, o reflexo da luz do dia nos prédios envidraçados, um ou outro pequeno avião, helicópteros. Navios vagarosos que somem, pesqueiros perto da ilha. De longe, tudo parece em paz. Dá pra ver a África daqui? Quando a Terra era redonda, não dava. Agora que é plana, dá – rimos juntos, colados –, mas só com telescópio.”
(Trecho do conto “O casal do farol”, de A vizinha das sete cordas, de H.A.) -
“Já no tempo de alfaiate, Zacarias, o velho Harley parecia entender a semelhança dessa profissão com a do escritor. Ambos enfrentam a mesma faina, a mesma feliz agonia de trabalhar com fios leves, da memória ou fantasia, e acertar a proporção dos cortes, o ajuste nas dobras e curvas, não exceder nas medidas. Para isso existe a tesoura, existe o ponto. Às vezes as mãos tremem, do escritor, do alfaiate. Texto e terno têm o talhe tênue, o tenso termo. Não adianta ter pressa nem usar tecido mais barato, cai mal no corpo, amassa fácil, fácil e desfia logo. É jogar dinheiro fora. Melhor uma casimira inglesa, coisa garantida. De nada serve agulha perita, se a linha for ordinária. Da mesma forma, só vale a pena escrever histórias bem amarradas – como se diz, rede firme (nunca um laço lasso), para resistir ao tempo. O texto que se quer literário, li não me lembro mais em que autor, deve guardar segredos e ser igual a u’a máquina bem azeitada, que funciona sem ruídos, nunca engrenagem seca, enferrujada, rangendo, ferro com ferro, como se vê tanto por aí, em livros de gente nova e até de autor consagrado (que falta faz um amigo para ler os originais com rigor). Sem esmero, exibe-se o banal. As palavras têm sexo, se atraem. O casamento delas é o que Machado chamava de estilo. Texto é textura, leveza, fluidez. Trabalho de formiga, aranha e abelha. E precisa ter calor, inquietação, dor. O resto é fast-food.”
(Túlio, personagem de Vale das ameixas, de H.A.) -
“Osman Lins partiu em 8 de julho de 1978, três dias depois de ter completado 54 anos. Escrevia um novo romance, que a doença o impediu de terminar. Em um de seus últimos textos, ‘Marcha fúnebre’, caso especial para TV, há uma oração premonitória: ‘Quero um lugar permanente, na terra que amei e onde passei uma jornada tão breve que, quando pensei que o dia começava, a noite já descia…’. Frase similar aparece na novela Domingo de Páscoa, publicada na revista Status em abril de 1978, três meses antes da morte do escritor: ‘Sinto-me inquieto e assustado devido à viagem iminente’.”
(H.A., “Osman Lins, 40 anos depois, mais atual”, palestra na ABL em agosto de 2018, disponível no YouTube e impressa na Revista Brasileira, nº 99, abril-junho, 2019, pp. 19-30.) -
“Em A voz dos sinos, o sagrado não é tratado apenas como religião, fé, cristianismo, budismo etc., nem somente levantadas as referências diretas nesse campo, mas também as paráfrases ou sutis citações de passagens bíblicas, aproximações paródicas, e outros elementos ligados a questões extrafísicas, o que se encontra acima da matéria. Ou metafísica, a alma, Deus etc. É tudo isso, mas não somente isso.”
(H.A., “Elos sagradas, laços femininos e amorosos”, apresentação de A voz dos sinos.) -
“Ainda fazia escuro quando acordei com o sim. Vá, filha. Só depois do sonho aceitei o convite. Não há pecado nisso. Gringo artista. Babélico. Sempre gentil, faz mais de ano o primeiro aceno. Seria apenas uma vez, una, sólo una. Depois, nunca mais. Solamente una. Contudo relutei, relutei, remoí remorsos antecipados. Pai, obrigada. Ah, esse aroma, o sabor do chá de hortelã, hortelã da minha horta, da hortinha dos vasos na varanda. Teste negativo. Ele exige cuidados. Ponho na touca uma flor?”
(Início do conto “Assim de touca e máscara?”, de A vizinha das sete cordas, de H.A.) -
“Comprar é mais fácil e rápido do que vender. Dezenas de interessados visitaram nossa casa. Ofertas reais, duas. Inaceitáveis. Carro velho no meio, um bocado em dólar (por que não trocavam no banco?), cota de clube. Cash, mané, pouco, quase nada. Só faltaram oferecer vale-transporte e vale-refeição. Trinta anos de sacrifícios a troco de quê? Demorou. Noites maldormidas, cálculos noturnos, contávamos com a venda da casa para as parcelas maiores, intermediárias.”
(Trecho do conto “Nas nuvens”, de A vizinha das sete cordas, de H.A.) -
“Mais de uma vez Túlio me contou que Dona Justina, a mãe dele, ainda criança revelou personalidade forte. Ouvia isso da avó. Foi precoce também no senso de justiça e no dom poético. Não é à toa que se tornou advogada e poeta. Na adolescência começou a escrever versos em cadernos escolares. Num deles, que Túlio me mostrou, li o poema ‘Café de outrora’, mais tarde publicado em livro. É bonito, sensível, gosto dele.”
(Início do conto “Dona Justina”, de A vizinha das sete cordas, de H.A.) -
“Dario não sabia que algo estranho estava prestes a acontecer. Levou um susto ao ouvir a porta bater às suas costas. Trovejou palavrões. Sem eco. Esmurrou a chapa de aço. Ninguém ouviria. Se alguém escutasse, faria alguma coisa? Cômodo apertado, escuro, nenhum móvel. Aqui é passagem? Para onde? Não existe outra porta.”
(Início do conto “E depois desse desterro?”, A vizinha das sete cordas, de H.A.)