Do pomar

Frases e trechos de livros de Hugo Almeida

  • “Amanheci tonto. Sonhos confusos, desconexos. Colegas professores fora da escola eu a um canto distante diálogo de papagaios camarões gigantes contorcendo-se resistindo ao gelo policiais broncos outros gentis não sei onde eu estava padre de amarelo-fechado em pé numa roda falante como se fosse o treinador de uma equipe de futebol no intervalo enorme pátio coberto de nuvens cinzas. Nada com nada. Depois um banco de madeira que alguém – eu (por quê eu?) – tinha de cuidar noite e dia num parque ou jardim, não sei onde – flores, terra, sujeira, lodo, ninguém podia sentar. Levantei sem saber o dia, que só veio no café: hoje Léa vem almoçar comigo. A lembrança me acendeu, me ascendeu.”


    (Harley/Timo, personagem e narrador de Vale das ameixas, de H.A.)

  • “A mãe não reaparece no sonho. Não conhece quem o visita. É jovem. De beleza pálida. Dario corre meia maratona no asfalto quente. Tinha fôlego, pernas velozes. A pressa regia seus dias. Suado, cai-não-cai, no pelotão do meio, recebe no rosto o tecido alvo, macio. Que dedos suaves. Ele não chega a ver o que deixou no pano. Sorri para ela e segue na vacilante marcha. A jovem fica extasiada com o que tem nas mãos.”


    (Do conto “E depois desse desterro?”, A vizinha das sete cordas, de H.A.)

  • “Quem é esse de máscara? Máscara de papel, parece saco de padaria justo no rosto, traços tão precisos, quase foto. Olho para ele, ele me vê. Rasga a máscara e o que aparece é o original dela, igualzinho. É meu pai. Corro para abraçá-lo. Ele me olha com estranheza.”


    (Zacarias, personagem do romance Vale das ameixas, de H.A.)

  • “Publicado pela primeira vez em 1984, Fratura exposta, prosa de intensa e doída poesia, é um marco na literatura brasileira. Três dos oito contos deste livro de estreia de Jeter Neves foram premiados no Concurso de Contos do Paraná, em 1978, categoria estreante, e considerados pelos jurados superiores aos dos laureados na principal. […] Aos textos premiados no Paraná, o mais importante concurso para contos inéditos do país, Jeter juntou outros cinco novos e compôs a coletânea Fratura exposta, Prêmio Cidade de Belo Horizonte em 1983 e lançado pela Editora Comunicação no ano seguinte. […] Quem leu a primeira edição deste livro vai se surpreender ou até se assustar com as novas versões dos contos, não somente desses três, mas de todos do volume, que a rigor é um novo livro. O que era ótimo tornou-se extraordinário.”


    (H.A., em “Dor e poesia expostos”, prefácio de Fratura exposta, de Jeter Neves, que será lançado pelo Escritório de Histórias no próximo sábado, 22 de agosto de 2026, no Spiral com Café, em Belo Horizonte, a partir das 9h30.)

  • “Nunca mais você apareceu, Harley. Zacarias não voltou. Não sei se volta. Bertha e Xaila também pelo mundo. Quem me visita de vez em quando é dona Violeta, em sonhos, acredite ou não. Da última vez disse que foi ela quem me mandou o filho, você, Timo, aqui. Waclawa. Bonito nome, melhor do que em português. Sua mãe estava linda, Harley, alegre, bem mais nova do que quando morreu. Ela sorria. Um sorriso feliz. Sobre o arabesco repetiu que eu podia contar quando você voltasse. E me disse como surgiu seu apelido.”


    (Do romance Vale das ameixas, de H.A.))

  • “O gato nesta madrugada é um tigre. Ainda caminha devagar, silencioso. Vem em minha direção. Cem anos? Quem sou? Sinto que vai avançar. Eudóxia tapa minha boca. Quer acordar o mundo?”.


    (Do conto “O canto do sonho”, de A vizinha das sete cordas, de H.A.)

  • “Pode ter sido o acaso que os reuniu ali. Há quem não acredite em acaso. Sou um deles. A questão aqui é outra, bem alheia ao motivo do encontro. Trata-se do que discutiram, de tudo que aconteceu na vida deles e naquela tarde. Também estava curioso e queria ouvir a conversa dos três. Prestei atenção. Faz parte do meu trabalho.

    A primeira frase da mulher me fisgou. Você vai alcançar a cura. Epa, o que é isso? Liguei o gravador do celular. Ainda não sabia o nome dela, nem dele, os dois ali à mesa. Pareciam amigos recentes. O senhor também acredita, não é, seu Nicolau?”


    (Início do conto “Encontro na Capela Dourada”, A vizinha das sete cordas, de H.A.)

  • “[…] Na semana passada, contudo – aleluia! –, recebi de um velho colega de faculdade (studienkollege), há décadas radicado em Berlim, uma mensagem em áudio (sotaque próximo ao de um gringo que aprendeu português já adulto) tão absurda que resolvi escrever este ‘Influxologia’. Ele não me sugeriu fazer um texto ficcional. Não. Apenas me informou de um episódio bizarro, assombroso, para dizer o mínimo, e me passou, sem querer, detalhes suficientes para eu escrever este breve conto.”


    (Narrador de “Influxologia alemã”, conto de A vizinha das sete cordas, de H.A.)