Uns toques

Citações para jovens escritores

  • “O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.”

    (Riobaldo, personagem e narrador de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.)

  • “Atravessa o mundo e suas alegrias, procura o amor, aguça com astúcia a gana de criar.”

    (Osman Lins, “Pentágono de Hahn”, Nove, novena.)

  • “Planeja-se um livro. […] É uma hipótese de trabalho; um plano, sim, mas no sentido em que estabelecemos, para nossa existência, uma diretriz, um programa de ação. Se o livro que surge me surpreende – este ou qualquer outro – não é por inesperado; ao contrário, esperamos sempre um livro diferente do que foi imaginado em bruto. Há imprevisíveis, novidades, surpresas, sendo estas surpresas, estas novidades, esses imprevistos, que irão aportar algum encanto à tarefa exaustiva – e de nenhum modo amena – de escrever. Imaginar um livro, planejá-lo, é incitar o espírito a entrar em ação, a expressar-se em torno de um núcleo, um foco imantado. As modificações, as retificações de rumo, se decorrem às vezes de processos inconsciente, podendo inclusive surgir em sonhos, respondem a exigências internas da obra, que não podem ser alcançadas a priori pelas limitações da inteligência.”

    (Osman Lins, “O ato de escrever”, Guerra sem testemunhas.)

  • “Há autores reacionários que escreveram obras revolucionários e há escritores de esquerda que tiveram de lutar para não se submeterem ao realismo socialista.”

    (Ronaldo Costa Fernandes, “A literatura e o ódio da direita”, Jornal Opção.)

  • “Santo Afonso Henriques! Fazei de mim uma escritora. Mas só isto. Nada de festivais, de júris em concursos (de beleza ou literários), de cargos em repartições chamadas culturais, de capelas, de frases de espírito. Livrai-me do fascínio que tanto dos nossos autores, hoje, têm pelo convívio com os ricos, pela adoção obrigatória de livros seus na área estudantil, pelas viagens com passagem e hotel pagos. Fazei-me orgulhosa de minha condição de pária e severa no meu obscuro trabalho de escrever.”

    (Julia Marquezim Enone, personagem do romance A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins, em prece em que evoca o escritor Lima Barreto.)

  • “Em nosso tempo, como não existe um pensamento estético universal, as tendências pessoais procuram se afirmar, todo poderosas, e a polarização entre as ideias de inspiração e trabalho de arte se acentua. Como a expressão pessoal está em primeiro lugar, não só tudo o que possa coibi-la deve ser combatido, como principalmente, tudo o que possa fazê-la menos absolutamente pessoal.”

    (João Cabral de Melo Neto, “A inspiração e o trabalho de arte”, Poesia e composição, 1952.)

  • “Como pode a arte sair do estado da mais pura disciplina, para a desobediência na cena urbana polifônica? Como pode arrancar seu verniz com as próprias unhas, só porque ainda insiste em nos presentear com seu silêncio resistente? Estaria ela perdendo ‘tempo’? Como podemos ouvi-la? Logo nós… míseros mortais que da sua transcendência não entendemos nada.”

    (Eliane Tróia, “Para pensar com o corpo: pode?”, prefácio de Sendas para o mundo flutuante, de Robson Hasmann.)

  • “A paciência, pela qual André Gide confessava apreço, necessariamente será desenvolvida. ‘É uma virtude grande e rara a paciência, saber esperar e amadurecer, corrigir-se, voltar a começar e, como dizia o Apóstolo, tender à perfeição.’ Ante o papel (buscar tranquilamente a frase, experimentar algumas de suas muitas possibilidades, aguardar o instante em que orações e períodos se encadeiem, trabalhar sobre eles); perante a vida (saber que esforço algum pode substituir o tempo em nosso processo de maturação e que nossos progressos se efetuam em segredo); esperar sem ânsia o instante em que alguém publicará afinal um livro seu…”

    (Osman Lins, Guerra sem testemunhas – O escritor, sua condição e a realidade social.)