Citações para jovens escritores
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“Proust é terrível. Desde sua juventude, deixou seus biógrafos desesperados por descobrir esta verdade tão simples, que um artista é feito de duas pessoas: a que vive e a que cria. ‘Um livro é o produto de um outro eu, que não aquele manifestado em nossos hábitos, na sociedade, em nossos vícios’. […] Na obra de Proust, quase todos os personagens são caricaturais, por um lado ou por outro, e é precisamente isso que os faz ter uma vida romanesca enorme, com faz a Recherche (Busca) parecer tanto o espelho de uma sociedade. Não se pinta a realidade a não ser pelo exagero.”
(Jean Dutourd, no prefácio de Em busca de Marcel Proust, de André Maurois.) -
“Gostaria de particularmente falar com jovens cineastas americanos. […] Acho que agora é um bom momento de se expressar. E jovens cineastas americanos têm muito a dizer sobre o que acontece nessa sociedade.”
(Kleber Mendonça Filho, diretor de O agente secreto, Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa em 2026.) -
“Proust insiste sempre em um ponto: o artista é, e deve ser, solitário. Mesmo os alunos, mesmo adeptos, enfraquecem o artista.”
(Joseph Czapski, em Proust contra a degradação.) -
“O menor objeto fielmente contemplado nos isola e nos multiplica. Diante de muitos objetos, o ser que sonha sente sua solidão. Diante de um só, o ser que sonha sente sua multiplicidade.”
(Gaston Bachelard, “Fragmento de um diário do homem”, O direito de sonhar.) -
“Lima Barreto efetivou um diálogo intensivo com as multiplicidades da cultura brasileira, operou interações poderosas com a mulher negra a partir de Clara dos Anjos, com as imigrantes, em As Aventuras do Dr. Bogoloff, com a contribuição indígena em Triste fim de Policarpo Quaresma e em O Moleque demonstrou a imensa milonga religiosa que percorria a vida cotidiana dos subúrbios brasileiros.”
(Jorge Augusto, Modernismo negro – A literatura de Lima Barreto.) -
“O cânone da literatura ocidental é um recorde minúsculo diante dos séculos de produção textual no continente. Esse quadro expressa estatisticamente, conforme critérios avaliativos da tradição eurocentrada, que há um infinito de textos ruins para cada texto bom. A Modernidade reordenou a qualificação dos textos literários, dando continuidade em grande medida a uma série de pressupostos já vinculados à tradição grega, como os conceitos de ‘mimese’ e ‘verossimilhança’, por exemplo, acentuando o aspecto de linearidade que atravessa o campo hegemônico das teorias da literatura de base ocidental.”
(Jorge Augusto, Modernismo negro – A literatura de Lima Barreto.) -
“Contemplo os lábios de Silvestri e, no meu desamparo, sou capaz de ver as palavras que eles vão pronunciando, decifro-lhes a grafia, dou-lhes a formatação de uma página impressa, atribuo-lhes entrelinhas e pontuações. Busco no emaranhado de letras as respostas cujas perguntas não mais ouso formular. As palavras têm o dom de ocultar. Mas elas também revelam.”
(Narrador de Patagônia, romance de João Batista Melo.) -
“O leitor não deve se preocupar se o que está sendo contado é original ou vem de uma segunda ou terceira fonte, desde que o conteúdo valha a pena. Dito de maneira mais simples, parece que a existência dos livros tem essa finalidade, a de ajudar a se tomar consciência da própria existência e, assim, ter prazer nela. Se isso é feito de modo completo ou fragmentário, em maior ou menor escala, depende de cada caso. É possível que alguns livros signifiquem para mim o que eu significo para ti: um companheiro com quem se abrir e em quem confiar.”
(Hugo von Hofmannsthal [1874-1929)] em carta ao amigo Edgar Karg von Bebenburg [1872-1905], As palavras não são deste mundo.)