Citações para jovens escritores
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“Em A invenção de Morel [romance de Adolfo Bioy Casares], tudo é dito de modo hesitante. O velho truque: a verossimilhança na ficção é obtida mediante uma fingida falta de clareza.”
(Alberto Manguel, Os livros e os dias.) -
“A poesia é como a pintura, haverá a que mais te cativa, se estiveres mais perto e outra, se ficares mais longe; esta ama a obscuridade, esta, que não teme o olhar arguto do crítico, deseja ser contemplada à luz; esta agradou um só vez, esta, revisitada dez vezes, agradará.”
(Horácio, A arte poética, tradução de Dante Tringali.) -
“A leitura é uma tarefa confortável, solitária, vagarosa e sensual. A escrita costumava compartilhar algumas dessas qualidades. Nos últimos tempos, porém, a profissão de escritor adquiriu certas características das antigas profissões de caixeiro-viajante e ator de repertório. Os escritores são convocados a fazer apresentações únicas em lugares distantes, exaltando as virtudes dos próprios livros como se exaltavam vassouras ou enciclopédias.”
(Alberto Manguel, no prefácio do seu Os livros e os dias.) -
“O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.”
(Riobaldo, personagem e narrador de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.) -
“Atravessa o mundo e suas alegrias, procura o amor, aguça com astúcia a gana de criar.”
(Osman Lins, “Pentágono de Hahn”, Nove, novena.) -
“Planeja-se um livro. […] É uma hipótese de trabalho; um plano, sim, mas no sentido em que estabelecemos, para nossa existência, uma diretriz, um programa de ação. Se o livro que surge me surpreende – este ou qualquer outro – não é por inesperado; ao contrário, esperamos sempre um livro diferente do que foi imaginado em bruto. Há imprevisíveis, novidades, surpresas, sendo estas surpresas, estas novidades, esses imprevistos, que irão aportar algum encanto à tarefa exaustiva – e de nenhum modo amena – de escrever. Imaginar um livro, planejá-lo, é incitar o espírito a entrar em ação, a expressar-se em torno de um núcleo, um foco imantado. As modificações, as retificações de rumo, se decorrem às vezes de processos inconsciente, podendo inclusive surgir em sonhos, respondem a exigências internas da obra, que não podem ser alcançadas a priori pelas limitações da inteligência.”
(Osman Lins, “O ato de escrever”, Guerra sem testemunhas.) -
“Há autores reacionários que escreveram obras revolucionários e há escritores de esquerda que tiveram de lutar para não se submeterem ao realismo socialista.”
(Ronaldo Costa Fernandes, “A literatura e o ódio da direita”, Jornal Opção.) -
“Santo Afonso Henriques! Fazei de mim uma escritora. Mas só isto. Nada de festivais, de júris em concursos (de beleza ou literários), de cargos em repartições chamadas culturais, de capelas, de frases de espírito. Livrai-me do fascínio que tanto dos nossos autores, hoje, têm pelo convívio com os ricos, pela adoção obrigatória de livros seus na área estudantil, pelas viagens com passagem e hotel pagos. Fazei-me orgulhosa de minha condição de pária e severa no meu obscuro trabalho de escrever.”
(Julia Marquezim Enone, personagem do romance A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins, em prece em que evoca o escritor Lima Barreto.)