Uns toques

Citações para jovens escritores

  • “Em nosso tempo, como não existe um pensamento estético universal, as tendências pessoais procuram se afirmar, todo poderosas, e a polarização entre as ideias de inspiração e trabalho de arte se acentua. Como a expressão pessoal está em primeiro lugar, não só tudo o que possa coibi-la deve ser combatido, como principalmente, tudo o que possa fazê-la menos absolutamente pessoal.”

    (João Cabral de Melo Neto, “A inspiração e o trabalho de arte”, Poesia e composição, 1952.)

  • “Como pode a arte sair do estado da mais pura disciplina, para a desobediência na cena urbana polifônica? Como pode arrancar seu verniz com as próprias unhas, só porque ainda insiste em nos presentear com seu silêncio resistente? Estaria ela perdendo ‘tempo’? Como podemos ouvi-la? Logo nós… míseros mortais que da sua transcendência não entendemos nada.”

    (Eliane Tróia, “Para pensar com o corpo: pode?”, prefácio de Sendas para o mundo flutuante, de Robson Hasmann.)

  • “A paciência, pela qual André Gide confessava apreço, necessariamente será desenvolvida. ‘É uma virtude grande e rara a paciência, saber esperar e amadurecer, corrigir-se, voltar a começar e, como dizia o Apóstolo, tender à perfeição.’ Ante o papel (buscar tranquilamente a frase, experimentar algumas de suas muitas possibilidades, aguardar o instante em que orações e períodos se encadeiem, trabalhar sobre eles); perante a vida (saber que esforço algum pode substituir o tempo em nosso processo de maturação e que nossos progressos se efetuam em segredo); esperar sem ânsia o instante em que alguém publicará afinal um livro seu…”

    (Osman Lins, Guerra sem testemunhas – O escritor, sua condição e a realidade social.)

  • “Horácio não se envaidece dos feitos bélicos romanos. As letras valem mais que a guerra. Os romanos poderiam se ombrear com os gregos se o trabalho da lima não os aborrecesse, se não fizessem pouco caso da poética da arte. Não basta o engenho, é preciso corrigir sem cessar, polindo com o esmero de um escultor que remata sua estátua, retocando-a com a unha.”

    (Dante Tringali, em comentário sobre A arte poética de Horário, que ele também traduziu.)

  • “A poética da arte supõe a necessidade de muito estudo, um longo aprendizado, uma sólida formação e incansável prática. Ela compreende qualidades adquiridas. A arte se ensina, se aprende.”

    (Dante Tringali, em comentário de A arte poética de Horário, que ele também traduziu.)

  • “Um romance é um buraco negro que suga tudo. Mas ilumina a vida.”

    (Vale das ameixas, de H.A.)

  • “Mais duas palavras sobre romance, enquanto não morro. Uma narrativa não é detentora de significação, mas deflagradora de significações. O título de um romance – essa máquina complexa que não nasce de ovo nem útero – deve misturar as ideias, e não orientá-las. Escrever, triunfo da liberdade; solidão fraterna.”

    (Harley, o Timo, personagem e narrador de Vale das ameixas, de H.A.)

  • “Escrever é estar no extremo / de si mesmo, e quem está / assim se exercendo nessa / nudez, a mais nua que há, / tem pudor de que outros vejam / o que deve haver de esgar, / de tiques, de gestos falhos, / de pouco espetacular / na torta visão de uma alma / no pleno estertor de criar.”

    (João Cabral de Melo Neto, “Exceção: Bernanos, que se dizia escritor de sala de jantar”, Museu de Tudo.)