Uns toques

Citações para jovens escritores

  • “Por seu surgimento e por sua destinação, a obra é inseparável de uma certa estrutura, de uma ordem a um só tempo real e virtual: a ordem da arte. É em função da existência de tal ordem, e da variável representação que dela estabelece, que o escritor pensa na criação. Toda obra nasce em presença das outras obras, não há nenhuma possibilidade de criação para quem ignore a existência das outras obras: o germe de um livro são as leituras, mais do que as experiências ou as ideias.”

    (Gaëtan Picon, O escritor e sua sombra.)

  • “Que vale o resumo de um livro? Prática superficial, difunde e reanima a ideia corrente segundo a qual a história é o romance, não um de seus aspectos, dos que menos ilustram a arte de narrar. Imaginar desejos, contratempos, embates, desistências, o triunfo ou a morte, prende-se à invenção em estado bruto. Nasce o romancista com o ato de dispor esses eventos e de elaborar uma linguagem que não sabemos se os reflete ou se apenas serve-se deles para existir.”

    (Osman Lins, A rainha dos cárceres da Grécia.)

  • Veja – Seria o seu livro [Avalovara] de leitura difícil?

    Osman Lins – Garanto que escrever foi mais difícil. Sabe? Eu diria que a estrutura rigorosa da obra é como uma jaula dentro da qual se movem animais selvagens. Inquietude, angústia, desespero, tudo que faz parte da nossa condição. Gostaria ainda que o leitor soubesse disso. Avalovara, como cada livro meu em cada época da minha vida, corresponde ao melhor que a minha capacidade criadora e imaginativa poderia oferecer aos meus semelhantes. Eu me sentira degradado e não me parece que honraria a literatura e os meus leitores se agisse de outro modo.”

    (Osman Lins, em entrevista a Veja, de 28 de novembro de 1973, transcrita em Evangelho na Taba.)

  • “Na realidade, toda a ficção é ficção. Toda a arte é engano. O mundo de Flaubert, como todos os mundos dos grandes escritores, é um mundo de imaginação, com a sua lógica própria, os seus convencionalismos próprios, as suas coincidências próprias. […] Talvez Flaubert parecesse realista ou naturalista há cerca de cem anos aos leitores que se formaram nas leituras daquelas damas e cavalheiros sentimentais que Emma admirava. Mas realismo e naturalismo são meras noções relativas. O que determinada geração considerava naturalismo num escritor parece à geração seguinte um exagero de monótonos pormenores e à geração anterior uma monótona falta de pormenores. Os ismos passam, o ista morre, a arte fica.”

    (Vladimir Nabokov, Aulas de literatura.)


  • O argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) relata, em vídeo, uma conversa que teve com seu compatriota Ernesto Sábato (1911-2011) sobre Cervantes e Dostoiévski e os grandes livros deles, Don Quixote e Crime e castigo.

    (Jorge Luis Borges, entrevista ao Portal Literário Azimut, da Fundación La Balandra, de Buenos Aires.)
  • “Adriano relatou uma passagem que achei interessante: o Romulo [Rômulo Cândido, escritor e padre] escreveu [em Palavra, parábola] que Moisés viu uma pedra e dela tirou água; Michelangelo viu a pedra e dela tirou uma obra de arte; Drummond viu a pedra e fez o poema; ele, o padre, viu a pedra e deixou que a pedra ficasse pedra mesmo, mas que ele se tornasse em alguma coisa melhor. Nunca tinha ouvido falar dessa autor, como somos ignorantes!”

    (Caio Junqueira Maciel, no romance Um estranho no Minho.)

  • “Uma pergunta inteligente não deve ser nem um prazer nem uma chateação. Mas ainda acho que é muito desagradável para o escritor falar sobre como ele escreve. Escreve para ser lido com os olhos e nenhuma explicação ou dissertação deveria ser necessária. Pode ter certeza que existe muito mais no que se escreve do que aquilo que se lê numa primeira leitura e, por ser assim, não é função do escritor explicar o que escreve ou organizar excursões, como um guia turístico, através da região mais difícil de sua obra.”

    (Ernest Hemingway, em entrevista a George Plimpton, Os escritores 2As históricas entrevistas da Paris Review.)

  • “A narração inclui a noção de perda: todo o desenrolar de um romance corresponde a uma balança onde o conflito nasce a partir de uma ausência. E essa ausência pode ser o amor frustrado (Werther, de Goethe), a vingança (O Conde de Montecristo, de Dumas), a busca de uma verdade (O talismã em Macunaíma ou a certeza do adultério em D. Casmurro) e todos aqueles conflitos próprios da arte de ficcionar que vão ocasionar os dramas, os enredos e as tramas.”

    (Ronaldo Costa Fernandes, O narrador do romance.)