Vulcão/Certos casais

“Deus fez o mundo à toa? Tudo tem motivo? No início, es­cutei um som atrás de mim, parecia voz, mas não ouvi nenhuma palavra. Em seguida, um toque no cotovelo, leve, de dedos? Tirei o braço do encosto, ali, ao lado da janela, à direita, bem atrás. Faltava pouco mais de uma hora para o fim do longo voo, agora noturno. Tâmara estaria me esperando. […] Mal tirei o braço, ele surgiu, macio, quente. Veio querendo, buscando minha mão. O vacilo foi curto, rapidíssimo. Impossível negar o toque. Há uma semana estou a zero, não é lá uma eternidade para fazer besteira. Mas, que pele. Lisa, lisinha, pura delícia. Silêncio. Somente as turbinas lá fora, incansáveis. Se alguém viesse me contar, cortaria: conta outra. Mão no pé nu.”


(Gil, personagem-narrador de H.A., conto “O sono do vulcão”, Certos casais.)