Vale das ameixas/guerra

“Os alemães invadiam meu país. Em 6 de agosto de 1914, Madame Curie escreve de Paris para as filhas na Bretanha: os alemães atravessaram a Bélgica dando combates. A valente Belgicazinha não admitiu que passassem sem resistência… Todos os franceses estão cheios de esperanças e acham que a luta, embora rija, acabará bem. A Polônia foi ocupada pelos alemães. Que restará depois da passagem deles? Não sei nada da nossa família.

Um mundo louco correndo para a catástrofe, como disse o tio Oskar. Tempos duros, vivíamos com muito menos do que o indispensável. Fome era prato de todo dia. No pão havia mais serragem que farinha. Açúcar e carne? Nem o cheiro. Uma noite meu tio nos levou pão preto e salame, ah, meu Deus, nunca vou esquecer, nunca comi alguma coisa com tanto apetite. Dinheiro já não valia nada, era um pedaço de papel. Aprendi não a economizar, mas a sufocar as tentações. Aprendi a viver em regime de carência. Eu me tornava rapazinho. Incentivado por meu tio, tive a alegre ilusão de compor versos. Papel e lápis me bastavam, além do alimento mínimo para sobreviver. Meus poemas da juventude ficaram lá, hoje são cinzas.”


(Harley, narrador e personagem de Vale das ameixas, de H.A.)