“Já no tempo de alfaiate, Zacarias, o velho Harley parecia entender a semelhança dessa profissão com a do escritor. Ambos enfrentam a mesma faina, a mesma feliz agonia de trabalhar com fios leves, da memória ou fantasia, e acertar a proporção dos cortes, o ajuste nas dobras e curvas, não exceder nas medidas. Para isso existe a tesoura, existe o ponto. Às vezes as mãos tremem, do escritor, do alfaiate. Texto e terno têm o talhe tênue, o tenso termo. Não adianta ter pressa nem usar tecido mais barato, cai mal no corpo, amassa fácil, fácil e desfia logo. É jogar dinheiro fora. Melhor uma casimira inglesa, coisa garantida. De nada serve agulha perita, se a linha for ordinária. Da mesma forma, só vale a pena escrever histórias bem amarradas – como se diz, rede firme (nunca um laço lasso), para resistir ao tempo. O texto que se quer literário, li não me lembro mais em que autor, deve guardar segredos e ser igual a u’a máquina bem azeitada, que funciona sem ruídos, nunca engrenagem seca, enferrujada, rangendo, ferro com ferro, como se vê tanto por aí, em livros de gente nova e até de autor consagrado (que falta faz um amigo para ler os originais com rigor). Sem esmero, exibe-se o banal. As palavras têm sexo, se atraem. O casamento delas é o que Machado chamava de estilo. Texto é textura, leveza, fluidez. Trabalho de formiga, aranha e abelha. E precisa ter calor, inquietação, dor. O resto é fast-food.”
(Túlio, personagem de Vale das ameixas, de H.A.)