Alta noite…/Jorge de Lima

Alta noite, quando escreveis um poema qualquer / sem sentirdes o que escreveis,/ olhai vossa mão – que vossa mão não vos pertence mais;/ olhai como parece uma asa que viesse de longe./ Olhai a luz que de momento a momento/ sai entre os dedos recurvos./ Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate/ e a faz deslizar sobre o papel estreito,/ com o clamor silencioso da sabedoria,/ com a suavidade do Céu/ ou com a dureza do Inferno!/ Se não credes, tocai com a outra mão inativa/ as chagas da Mão que escreve.”

(Jorge de Lima, “Alta noite quando escreveis”, A túnica inconsúltil.)