“Planeja-se um livro. […] É uma hipótese de trabalho; um plano, sim, mas no sentido em que estabelecemos, para nossa existência, uma diretriz, um programa de ação. Se o livro que surge me surpreende – este ou qualquer outro – não é por inesperado; ao contrário, esperamos sempre um livro diferente do que foi imaginado em bruto. Há imprevisíveis, novidades, surpresas, sendo estas surpresas, estas novidades, esses imprevistos, que irão aportar algum encanto à tarefa exaustiva – e de nenhum modo amena – de escrever. Imaginar um livro, planejá-lo, é incitar o espírito a entrar em ação, a expressar-se em torno de um núcleo, um foco imantado. As modificações, as retificações de rumo, se decorrem às vezes de processos inconsciente, podendo inclusive surgir em sonhos, respondem a exigências internas da obra, que não podem ser alcançadas a priori pelas limitações da inteligência.”
(Osman Lins, “O ato de escrever”, Guerra sem testemunhas.)