Mil corações…/sinfonia

“Li Mil corações solitários e ainda estou sob impacto por várias razões. Primeiramente, pela sua coragem em trilhar caminhos tão inovadores. Falo do conteúdo: um retrato realista de nossa sociedade patriarcal e doente (acho que não melhorou muito desde que você o escreveu, talvez tenha até piorado); mas falo sobretudo da estética, da forma em que essa história é narrada. O modo polifônico, no seu caso, me deu a impressão de que o livro se escreveu sozinho, você foi apenas o maestro que uniu numa só sinfonia uma pletora de instrumentos/vozes. Não posso deixar de citar a refinada reprodução de uma oralidade que surpreende o leitor pela sua verossimilhança. Abusando da metáfora musical, é como se os personagens executassem seus solos, enquanto as vozes dos outros permanecem presentes, mas caladas, como uma paisagem de fundo que ressalta a virtuosidade dos relatos.

Lamento, por outro lado, ter lido logo em seguida os textos que acompanham a 4ª edição (primorosa, por sinal). Neles, senti-me roubado de tudo o que poderia dizer, pois as análises são de uma abrangência e precisão sem par.”

(Mauro Pinheiro, escritor e tradutor. Autor de Cemitério de navios, Os caminhantes e Aquidauana, entre outros. Vive em Arles, França.)


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