“Eu estou no meu corpo, conhece este verso do Murilo Mendes? Sabe que eu nunca tinha lido nada dele e sonhei com ele quando morreu e no outro dia vi a foto no jornal e era igualzinho o homem que eu tinha visto no sonho? (Recupera o fôlego.) Agora foi com a tia Lia, irmã da mamãe. Ela me disse para eu criar meu filho com toda a liberdade. E vou criar, sim, cara. Cem por cento. (Voz mais forte.) Você está vendo isto aqui? (Se afasta, mostra o corpo, separando as mãos, a partir do peito, para baixo.) Pois é, minha luta está aqui dentro. Só, só. E só. Olha o tamanho da minha briga (dedo na cabeça). É aqui a minha guerra, excelência! Só. Tem um fio de alta tensão, daqui, tun-tun (bate no coração), aqui (cabeça). Daqui-aqui. Nesse pedaço fica o meu front. Não quero o mundo, não, cara. Quero nada não. Quero eu, eu pra mim, sacou?, e pro neném, você não compreende, René? Eu fui à luta pra saber qual era. Tô sabendo. Quer saber? Deus comigo. Deus contigo, Deus com todos. A noite (afasta René). Eu cuido dele sozinha (bate a porta). De-pu-ta-di-nho de borra!”
(Ana, personagem de Mil corações solitários, de H.A.)