(José Newton Garcia de Araújo, doutor em Psicologia e escritor, autor de Retalhos de fazenda. Belo Horizonte.)“Nem sei o que dizer. Se eu fosse jurado do prêmio Nestlé, dava-lhe a láurea sem examinar os demais livros. Difícil parar de ler Mil corações solitários antes do ponto final. O que mais me impactou foi a complexa arquitetura, a montagem da obra. Você é maldoso, não entrega nada mastigado para o leitor e isso (que permanece até hoje) é um dos geniais traços de sua escrita. Claro que o burrinho aqui vai ter que ler mais uma ou duas vezes. Imagino o seu interminável trabalho artesanal para ‘desmontar’ o todo que estava ‘montado’ em sua mente, antes de a escrita ir se fazendo no caminho. Eu não daria conta disso nunca, daí minha inveja ou meu sentimento de impotência diante do seu texto tão criativo. Sou cartesiano, quadrado. Fora isso, o lado psicológico, os traços dos personagens, a ambiência de solidão, sofrimento e estranheza, entrecruzados com os tocantes momentos de resistência ou rebelião dos filhos, mas da mãe principalmente, bendita viagem a São Paulo, a sexualidade explodindo no meio de tantos homens, corintianos, a noite no ônibus, mas tão magistralmente resguardada no véu da escrita formalmente ‘desregrada’, só a carta posterior retoma a linearidade, nas confidências à mãezinha lá no céu – e quanta ternura que essas cartas desvelam e sustentam, um pilar ao longo do livro. Tem hora que brota uma vontade suave de chorar. Enquanto isso, uma história ‘documental’ de Minas, das citações aparentemente deslocadas, mas compondo um pano de fundo com outros momentos da geomineiridade do enredo. E, acima de tudo, a atualidade dos temas evocados (política, costumes, sexualidade), parece que o livro foi escrito hoje, só faltaram internet e celular que não existiam por aqui. Posso estar falando muita bobagem, pois preciso ler outra vez, passada a curiosidade da primeira leitura, para tentar costurar o que você deixa tão habilmente descosturado, nessa engenharia que comporta o pós-moderno (?) e o clássico da escrita (Joyce, Saramago, Machado de Assis? Minha ignorância da literatura não me permite citar outros autores que ilustrem o que quero dizer). Fica um sentimento de perplexidade: acabou sem ter acabado, encheu deixando vazios, apaziguou deixando uma angústia que precisa permanecer. E não é isso a essência da literatura de primeira grandeza?”
Deixe seu comentário