Mil corações…/sonhos

Nem sei, Mana, se escrever me faz bem. (Tem hora que sim.) Não sei mesmo se escrever, inventar histórias, compensa. Veja: lá em casa só você não tem essa mania (ou seria loucura?) e, por isso mesmo, é a mais feliz, a ‘mais normal’, solta, espontânea. Você não escreve. Vive. E basta. Sabia que a mamãe faz cartas (eu roubei algumas) pra mãe dela até hoje? E a vovó morreu antes de eu nascer… O ‘papai’ se tranca naquele escritório-esconderijo e bate à máquina (daí esse meu ‘defeito’?) a noite toda, às vezes até de luz apagada.

Imagino então o seguinte: uma mistura do que estou escrevendo com as cartas da mamãe, o que o papai escreve (seja lá o que for; de tudo é possível extrair poesia e ficção, até de contas e relatórios, que deve ser o caso dele) e alguma coisa sua, claro (o que você anda fazendo?). Já pensou que livro? A melhor história é a real. Eu penso nisso e me perco, acho tudo um absurdo e, quando durmo, o absurdo aparece de novo e bem maior.

Ontem mesmo sonhei com uma mendiga que ‘mora’ numa esquina aqui perto de casa, na rua Avanhandava (gosto desse nome), quase em frente a um restaurante que já foi de luxo e ainda serve bem. No sonho, ela chegou toda imunda e rasgada perto de mim na porta do prédio – era noite, fazia frio e ventava – e me pediu ‘um pouso’. A mulher, chamada pelo pessoal por aqui de ‘Maluquinha’ – fala sozi­nha sem parar –, insistia em entrar comigo. ‘A casa não é minha’, eu dizia. ‘Eu sei que a Bel viajou’, ela respondia. ‘Não vou te amolá, durmo num canto da área.’ E eu, Mana, sem jeito: ‘Por favor, minha senhora, a casa não é minha, já disse…’.  Ela calou um pouco – parece que tinha desistido – e pediu um trocado. ‘Agora não tenho’, menti.

‘Então, me dá umas folhas do seu jornal aí…’ Gelei. Ah, ma­ninha, eu que sempre pensei que fosse um sujeito desprendido, bom, justo e tudo mais, sabe que titubeei em dar o jornal pra mendiga se cobrir? Lembrei que havia coisa que eu ainda queria ler, uns artigos que pensei em recortar e guardar. Ela percebeu meu vacilo. ‘Nem o jornal, moço…’ Dei todo. Tomei o elevador com vergonha de mim mesmo, já quentinho ali dentro, livre do vento. Acho que se não tivesse sido sonho (ou pesa­delo?) teria acontecido exatamente do mesmo jeito, eu não deixaria a mulher entrar e também relutaria em dar o jornal.”


(René, em carta à irmã, Ana, personagens de Mil corações solitários, de H.A.)