“A vizinha”/mistério

“Só hoje pude me voltar com a merecida atenção aos textos de A vizinha das sete cordas. Confesso que me deixaram acima de tudo uma grande interrogação. A pergunta ‘Para onde vai o mundo?’, em ‘Canoa do tempo pode abarcar todo o mistério que se esconde ou se apresenta na maior parte dos contos. Fica-se, como na vida, a olhar pra dentro, à deriva, com perguntas sem respostas. Até mesmo o divertido ‘Influxologia alemã’ nos leva à questão atual mais incômoda, que para muitos de nós não tem resposta: como chegamos a um tempo em que verdades factuais são contestadas e mentiras absurdas validadas com entusiasmo ensandecido?

Ironias finas pontuam os textos, como no imperativo ‘Parta, mamãe!’, de ‘O canto de Clarice’, uma das mais ácidas, além de verdades duras (‘A frase que mais dói é a mudez’, de ‘E depois desse desterro?’) ou delicadas, mas que, como tudo, têm seus ângulos (‘Quem mostra o coração voa’, mas ‘Quem revela o coração fica vulnerável’, de ‘O canto do sonho’). São páginas de boa literatura, em que é preciso voltar e voltar para apreender seus cristais nem sempre evidentes, como nas demais obras suas que li.”

(Celia Demarchi, jornalista. São Paulo.)


Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *