Bem no alvo

Citações de diversos autores

  • “O último dia do ano
    não é o último dia do tempo.
    […]
    O último dia do tempo
    não é o último dia de tudo.
    Fica sempre uma franja de vida
    onde se sentam dois homens.
    Um homem e seu contrário,
    uma mulher e seu pé,
    um corpo e sua memória,
    um olho e seu brilho,
    uma voz e seu eco,
    e quem sabe até se Deus…”

    (Carlos Drummond de Andrade, “Passagem do ano”.)
  • “Musicar
    Senhor,
    faz de mim
    um instrumento
    de tua música.
    Onde há silêncio
    que eu leve o si.”

    (Carlos Rodrigues Brandão [1940-2023], de poema transcrito na dedicatória de Integração social pela educação, organizado por Simone de Magalhães Vieira Barcelos et alii.)
  • “O mar e eu falamos atentamente.
    É um diálogo ameno, quase imperceptível.
    Ele não acredita muito que eu o possa entender,
    Como se afinal não fôssemos ambos a mesma coisa,
    A mesma poção divina derramada
    Em dois estados diferentes.”

    (Laura Carrillo Palacios, Fragor.)
  • “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.”

    (Machado de Assis, “Missa do Galo”, Páginas recolhidas.)
  • “Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas ‘loucuras’: – Bom, no Natal, quero comer peru.”

    (Mário de Andrade, “O peru de Natal”, Contos novos.)
  • “Luther está deitado, sem pensar em nada, consciente apenas dos ruídos à sua volta, de que respira e de que sente as pulsações do coração. Deitada junto de si acha-se a mulher, voltada sobre o lado direito e fruindo o prazer do sono. Merece-o, porque, rigorosamente falando, é manhã de Natal, e na véspera trabalhou todo o dia como uma escrava: preparou o peru, cozinhou e só há algumas horas acabou de enfeitar a árvore.”

    (J. O’Hara, Encontro em Samarra.)
  • Veja o Retábulo de Osman Lins, organizado por Elizabeth Hazin, no Recife, pelos 100 anos de nascimento do escritor.

  • “Meu papagaio alto, intrigando as pessoas, tão original quanto o do pastoril, enquanto outro, vermelho, dele se aproxima. Em redor de mim, olhando-o por condescendência, meus parentes, a quem chamei. Nem uma vez proferem, em meu louvor, as palavras que tão grato me seria ouvir. Isto não me rompe a exaltação: sinto que os venci, erguendo sobre a indiferença deles o objeto novo, impossível de gerar-se em seus espíritos.”

    (Osman Lins, “Pentágono de Hahn”, Nove, novena.)