Uns toques

Citações para jovens escritores

  • Alta noite, quando escreveis um poema qualquer / sem sentirdes o que escreveis,/ olhai vossa mão – que vossa mão não vos pertence mais;/ olhai como parece uma asa que viesse de longe./ Olhai a luz que de momento a momento/ sai entre os dedos recurvos./ Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate/ e a faz deslizar sobre o papel estreito,/ com o clamor silencioso da sabedoria,/ com a suavidade do Céu/ ou com a dureza do Inferno!/ Se não credes, tocai com a outra mão inativa/ as chagas da Mão que escreve.”

    (Jorge de Lima, “Alta noite quando escreveis”, A túnica inconsúltil.)

  • Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida…”

    (Mario Quintana, “A carta”; Caderno H.)

  • “Ter Arte é ter Paixão. Não há Paixão sem verso…/ O Verso é a Arte do Verbo – o ritmo do som…/ Existe em toda a parte, ao léu da Vida, asperso / E a Música o modula em gradações de tom…”

    (Jorge de Lima, “Paixão e Arte”, Os melhores poemas, seleção de Gilberto Mendonça Teles.)

  • “Assim nos andamos nós – do realismo para o sonho, e deste para aquele, na oscilação perpétua das dúvidas, sem que se possa diferençar na obscura zona neutral alongada à beira do desconhecido, o poeta que espiritualiza a realidade, do naturalista que tateia o mistério.”

    (Euclides da Cunha, no prefácio “Antes dos versos” de Poemas e canções [1908], de Vicente de Carvalho.)

  • “Conheço muitos que andam com uma folha / Que contém o que necessitam. / Quem chega a ver a lista diz: é muito. / Mas quem a escreveu diz: é o mínimo. // Alguns no entanto mostram orgulhosos sua lista / Que contém muito pouco.”

    (Bertolt Brecht, “A lista de necessidades”, Poemas – 1913-1956.)

  • “Ante a ilusão, talvez a melhor arma seja a intuição.”

    (Mauro Pinheiro, Cemitério de navios.)

  • “ler um livro como se olha o mar”

    (Mar Becker, Noite devorada.)

  • Avalovara (1973), relato ficcional do pernambucano Osman Lins (1924-1978), inicialmente denominado A arte de tecer romances, pode ser visto como um projeto de pesquisa e de criação que espelha o perfil do homem brasileiro da época de sua circulação. Isto não somente no que se refere aos personagens, ambientes e relações sociais, como também no que diz respeito às diferentes reflexões do próprio autor imiscuídas na trama. Nessa obra, vislumbra-se o processo enquanto criação e a criação enquanto processo.”

    (José Cirilo Silva, “Avalovara, de Osman Lins: recepção crítica em periódicos [1973-1977]”, dissertação de mestrado, IEB-USP, 2025.)