Bem no alvo

Citações de diversos autores

  • “Durante sessenta ou setenta anos no século XIX, o romance, na Europa, desenvolvendo-se muito rapidamente nas mãos de um grupo de mestres, tornou-se uma ferramenta extraordinária. Fez o que nenhuma outra forma literária – ensaio, poema, drama, história – poderia fazer. Deu, à sociedade industrial, ou em processo de industrialização, ou moderna, uma ideia muito clara de si mesma. Mostrou, de modo imediato, o que não tinha sido mostrado antes; e isso alterou a visão. Certas coisas na forma podiam ser modificadas ou ser, posteriormente, objeto de jogos, mas o padrão do romance moderno tinha sido estabelecido, assim como seu programa.

    Todos nós que viemos depois fomos derivativos. Nunca mais pudemos ser os primeiros.” 

    (V.S. Naipaul, Ler e escrever.)
  • “O romance, em suma, retrata a multiplicidade, o dinamismo do real, mas transforma a sancta simplicitas linguística em sonho e ideal.”  

    (Vittorio Coletti, “A padronização da linguagem:  caso italiano”, A cultura do romance, org. Franco Moretti.)
  • “– O mundo da tecnologia e seus tentáculos, a escravidão eletrônica, os processos internos de aferição de competência, tudo isso gera um mal-estar; e nesse escravagismo neoliberal cada qual por si e… Vida de gado, rotineira, bestializante, em que a fraternidade é apenas uma sombra esquiva no meio da engrenagem.”  

    (Personagem do conto “No banco”, de Todos os desertos: e depois?, de Ronaldo Cagiano.)
  • “O romance é a forma da aventura do valor próprio da interioridade. […] seu conteúdo é a história da alma que sai a campo para conhecer a si mesma, que busca aventuras para por elas ser provada e, pondo-se à prova, encontrar a sua própria essência.”

             

    (Georg Lukács, A teoria do romance.)
  • “Eu também não ligo para dinheiro. Mas o dinheiro é importante para mim. Preciso dele, de parte do que me proporciona o meu trabalho para comprar meus livros, meus discos, fazer as minhas viagens, aproximar-me, por todos os meios, do mundo. São coisas indispensáveis ao escritor.”

              

    (Osman Lins, em carta ao amigo e escritor Hermilo Borba Filho, em 7 de fevereiro de 1969, E viva a vida!, org. Nelson Luís Barbosa.)
  • “Enquanto dos morros só se ouviam os sons do samba, parecia não haver problema. Mas agora se ouvem os tiros. Não se trata de uma guerra civil, como às vezes se pensa, mas de uma guerra pós-moderna, econômica, que depende das artes bélicas mas também das leis do mercado, é um tipo de comércio. Por isso não há solução mágica à vista. Sabe-se que é preciso destruir as ‘vanguardas’ – os que praticam barbaridades, os traficantes de drogas – numa operação de força implacável. Exterminá-los, porém, talvez seja mais fácil do que desmontar o circuito econômico que os sustenta e cujas pontas – a produção e o consumo – não estão nas favelas.

    A experiência relatada neste livro mostra que nenhuma operação de força fará sentido se a expulsão da minoria delinquente não se fizer acompanhar de uma ação de cidadania que incorpore socialmente a massa de excluídos do império – no caso, da república. Será uma questão de distribuição: justiça social para muitos.”

               

    (Zuenir Ventura, Cidade partida.)
  • “A palavra que se escreve, tão importante quanto aquela que se fala, é um registro duradouro da experiência humana. A escrita armazena os saberes, evitando começar do zero, a todo o tempo; acumula os fatos da história, acompanhados a partir da gravação em um suporte.”

               

    (Nilma Lacerda, Pelas águas da escrita – Diário de viagem.)
  • “Para formar cidadãos críticos e independentes, difíceis de manipular, em permanente mobilização espiritual e com uma imaginação inquieta, nada melhor do que bons romances. […] Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante grave, alheio à paixão e ao erotismo, o mundo sem romances, esse pesadelo que procuro delinear, teria como traço principal o conformismo, a submissão generalizada dos seres humanos ao estabelecido. Também nesse sentido seria um mundo animal.”

               

    (Mário Vargas Llosa [1936-2025], “É possível pensar o mundo moderno sem o romance?”, A cultura do romance.)