Bem no alvo

Citações de diversos autores

  • “Nunca saberemos quantos dos livros que hoje vou autografar serão efectivamente lidos além da página em que fica a dedicatória. Alguém chegará ao fim desses livros? A literatura sofreu uma transformação enorme. Tenho a impressão de que a literatura contemporânea esqueceu praticamente tudo o que aconteceu durante o século XX. Desde Marcel Proust até James Joyce, Samuel Beckett, Thomas Bernhard ou Fernando Pessoa a literatura percorreu um caminho extraordinário. No entanto, hoje parece ter regressado à linguagem e às estruturas narrativas do século XIX: quanto mais acessível e fácil de consumir for um livro, maior é o seu sucesso.”

    (László Krasznahorkai, escritor húngaro, Nobel de Literatura em 2025, em recente entrevista a Isabel Lucas, no Ípsilon.)

  • “Considerada às vezes como um texto de espírito religioso, esta narrativa [‘Retábulo de Santa Joana Carolina’, de Nove, novena, de Osman Lins] é um poema contra a violência, contra o aviltamento insidioso e implacável da pessoa humana nas condições de extrema pobreza nas quais vivem as populações do Nordeste brasileiro.”

    (James Amado, em artigo publicado na França em 1982, citado por Gaby Kirsch em Osman Lins: o sopro na argila, organizado por H.A.)

  • “Um dia, Clarice Lispector/  intercambiava com amigos/ dez mil anedotas de morte,/ e do que tem de sério e circo.//  Nisso, chegam outros amigos,/ vindos do último futebol,/ comentando o jogo, recontando-o,/ refazendo-o, de gol a gol.// Quando o futebol esmorece,/ abre a boca um silêncio enorme/ e ouve-se a voz de Clarice:/ Vamos voltar a falar na morte?”

    (João Cabral de Melo Neto, “Contam de Clarice Lispector”, Agrestes.)

  • “Duas vezes foi criado o mundo: quando passou do nada para o existente; e quando, alçado a um passo mais sutil, fez-se palavra. […] A palavra, porém, não é o símbolo ou reflexo do que significa, função servil, e sim o seu espírito, o sopro na argila.”

    (Osman Lins, “Retábulo de Santa Joana Carolina”, de Nove, novena.)

  • “O calendário é uma rede no ar, o calendário caça o ar como se existissem borboletas de ar. Veja: o barqueiro segue o rio, da cabeceira à foz. Segue e está presente, no curso da viagem, em todos os pontos do percurso. Pode, em momentos privilegiados, ter a visão simultânea – não da viagem toda: a tanto não alcança – de alguns segmentos da viagem. Incursões.”

    (Osman Lins, Avalovara.)

  • “Pode-se dizer que hoje não há uma arte, não há a poesia, mas há artes, há poesias. Cada arte se fragmentou em tantas artes quantos foram os artistas capazes de fundar um tipo de expressão original.”

    (João Cabral de Melo Neto, “A inspiração e o trabalho de arte”, Poesia e composição, 1952.)

  • “Na época atual, tão propícia aos valores comerciáveis, que lugar tem o indivíduo que quer exaltar os espíritos, agitar as inteligências, levantar perplexidades? Que lugar tem o homem que quer incendiar um fervor?”

    (Osman Lins, “O outro lado do quadro”, Do ideal e da glória – problemas inculturais brasileiros.)

  • “O que digo é que Osman nasceu com a paixão do romance, aguçadora da observação, agregadora por natureza, capaz de unificar coisas aparentemente díspares.”

    (Lauro de Oliveira, “Osman Lins: ética na vida e na ficção”, Osman Lins: o sopro na argila, org. H.A.)