Citações de diversos autores
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“Sei que, na sua posição como ex-membro do corpo diplomático, é impossível admitir a participação dos EUA no desaparecimento do embaixador russo [Ilya Tchernyschov], relatado em meu texto. Quem sabe um dia, se os arquivos da CIA forem publicados, tenhamos os fatos revelados.
Valey Larskov, o funcionário da Embaixada que acompanhava o embaixador russo na entrada no mar, desapareceu no mesmo dia, não tendo sido encontrado seu corpo, o que dá ensejos às conjecturas traçadas no texto.
Da mesma forma, há inúmeros documentos que provam a participação direta ou indireta dos EUA no golpe que derrubou João Goulart.”
(Paulo Valente, filho de Clarice Lispector, em carta a Lincoln Gordon, ex-embaixador dos EUA no Brasil, transcrita em A morte do embaixador russo.) -
“O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e
coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
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O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…”
(Carlos Drummond de Andrade, “Passagem de ano”, A rosa do povo.)
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“Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
Apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o lugar de Natal abençoava os legumes.”
(Carlos Drummond de Andrade, “Papai Noel às avessas”, Alguma poesia.)
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“Suas mãos apalpavam suas roupas, remexendo-as, virando-as pelo avesso, jogando-as para o alto, trocando-as de lugar, fazendo com elas todo tipo de extravagância.
– Nem sei o que faço! – exclamou ele, rindo e chorando ao mesmo tempo, enrodilhado por suas meias compridas. – Sinto-me leve como uma pluma, feliz como um anjo e alegre feito um menino. Estou eufórico como um bêbado. Um feliz Natal para todos! Um feliz Ano-Novo para o mundo inteiro! Viva! Iiiiipi-hurra!”
(Charles Dickens, Um conto de Natal.) -
“O excesso de misericórdia encoraja a transgressão, e um segundo crime nasce sempre do perdão.”
(Shakespeare, Medida por medida.) -
“Durante sessenta ou setenta anos no século XIX, o romance, na Europa, desenvolvendo-se muito rapidamente nas mãos de um grupo de mestres, tornou-se uma ferramenta extraordinária. Fez o que nenhuma outra forma literária – ensaio, poema, drama, história – poderia fazer. Deu, à sociedade industrial, ou em processo de industrialização, ou moderna, uma ideia muito clara de si mesma. Mostrou, de modo imediato, o que não tinha sido mostrado antes; e isso alterou a visão. Certas coisas na forma podiam ser modificadas ou ser, posteriormente, objeto de jogos, mas o padrão do romance moderno tinha sido estabelecido, assim como seu programa.
Todos nós que viemos depois fomos derivativos. Nunca mais pudemos ser os primeiros.”
(V.S. Naipaul, Ler e escrever.) -
“O romance, em suma, retrata a multiplicidade, o dinamismo do real, mas transforma a sancta simplicitas linguística em sonho e ideal.”
(Vittorio Coletti, “A padronização da linguagem: caso italiano”, A cultura do romance, org. Franco Moretti.) -
“– O mundo da tecnologia e seus tentáculos, a escravidão eletrônica, os processos internos de aferição de competência, tudo isso gera um mal-estar; e nesse escravagismo neoliberal cada qual por si e… Vida de gado, rotineira, bestializante, em que a fraternidade é apenas uma sombra esquiva no meio da engrenagem.”
(Personagem do conto “No banco”, de Todos os desertos: e depois?, de Ronaldo Cagiano.)