Bem no alvo

Citações de diversos autores

  • “Madrugamos no aeroporto. No voo para Milão, num jornal, li que o poeta português Manuel Alegre ganhara o Prêmio Camões. Na entrevista, ele afirmou que “o prêmio lhe chegara tarde”. Lembrei-me de uma frase de Camus: ‘Dois perigos espeitam os escritores: o orgulho e o rancor’.

    (Caio Junqueira Maciel, Um estranho no Minho.)

  • “Quando é impossível ensinar os clássicos aos leitores comuns de escassa cultura, ensinai-os por meio do romance; quando é impossível ensinar a historiografia, ensinai por meio do romance; quando é impossível ensinar a filosofia, ensinai por meio do romance; quando é impossível ensinar o direito, ensinai por meio do romance.”

    (Liang Qichao (1873-1929), em Yinbingshi he jí, citado por Henry Zhao, em “Historiografia e ficção na hierarquia cultural chinesa”, em A cultura do romance, org. Franco Moretti.)
  • “Mas eu não tenho nenhuma das virtudes de um rei, como justiça, honestidade, firmeza, generosidade, perseverança, misericórdia, humildade, dedicação, paciência e coragem; não tenho nem traço delas. Não. E sei muito bem o que é o crime. Seu eu estivesse no poder, os castelos e os bens de todos os nobres seriam confiscados, suas mulheres e suas filhas não iriam conseguir satisfazer a imundície dos meus desejos. Eu despejaria o doce leite da concórdia no inferno. Eu destruiria todos que se opusessem à minha vontade. Não haveria paz na Terra. Só miséria e destruição.”

    (Malcolm, personagem de Macbeth, de Shakespeare.)
  • “O excesso de misericórdia encoraja a transgressão, e um segundo crime nasce sempre do perdão.”

    (Shakespeare, Medida por medida.)
  • “Fechei o livro. Ele não resistiu. Apenas sorriu com suas folhas. E eu, antes de deixá-lo na prateleira onde o havia encontrado, sussurrei:

    ‘Sei que sempre existirá. Um dia, terá um título. Que esse dia demore. E que você cresça ainda mais.’

    Quando saí, o sino da igreja ainda cantava. Mas era diferente agora. Como se o som também tivesse lido o livro comigo. E talvez tivesse sido ele – o sino – quem escrevera a primeira frase.”

    (Lara Vaz-Tostes, Por dentro, de onde os nomes nascem.)
  • “A que nos referimos quando falamos da forma de uma história? Referimo-nos em primeiro lugar à sua estrutura, isto é, ao desenvolvimento da narração; à escolha desta ou daquela linha, à escolha das personagens e ao uso que o autor delas faz, à sua interação, aos diferentes temas, às linhas temática e à sua intersecção nos diversos movimentos que o autor introduz na ação para produzir este ou aquele efeito direto ou indireto, assim como à preparação de efeitos e impressões. Numa palavra, referimo-nos ao esquema da obra de arte. Isto é a estrutura.

           Outro aspecto da forma é o estilo, isto é, o modo de funcionamento da estrutura; através do estilo, vemos as peculiaridades do autor, os seus maneirismos, os seus inúmeros e particulares truques. Se o seu estilo é vívido, veremos o tipo de imagens que evoca, as descrições que utiliza, o modo como progride; e se emprega comparações, veremos como usa e varia os recursos retóricos da metáfora e do símile, e as suas diferentes combinações. O efeito do estilo é a chave da literatura: é uma chave mágica para entender Dickens, Gógol, Flaubert, Tolstoi e todos nos grandes mestres. Forma (estrutura e estilo) = Assunto: o porquê e o como = o quê.”

    (Vladimir Nabokov, Aulas de literatura.)
  • Em texto original, arrebatador, de imenso e destemido fôlego argumentativo, o escritor e professor de Filosofia do Direito na UFMG Andityas Matos critica a vaidade e os enganos do chamado mundo literário. Vale a pena – e muito – ler o artigo dele.

    (Acesse aqui o texto de Andityas Matos, ‘Indelicadeza’, jornal Rascunho, junho de 2025.)

  • “Gustave Flaubert definiu com clareza o ideal do romance quando disse que, tal como Deus no seu mundo, o autor, no seu livro, deve estar em todo o lado e em nenhum, invisível e onipresente. Existem várias obras importante em que a presença do autor é tão discreta como Flaubert pretendia, ainda que nem ele tenha alcançado esse ideal em Madame Bovary. Mas mesmo nas obras em que o autor é idealmente discreto, encontra-se disseminado por todo o livro, de modo que a sua própria ausência se transforma numa espécie de radiante presença. Como se diz em francês, il brille par son absence – ‘brilha pela sua ausência’.”

    (Vladimir Nabokov, Aulas de literatura.)