Citações de diversos autores
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“Eu também não ligo para dinheiro. Mas o dinheiro é importante para mim. Preciso dele, de parte do que me proporciona o meu trabalho para comprar meus livros, meus discos, fazer as minhas viagens, aproximar-me, por todos os meios, do mundo. São coisas indispensáveis ao escritor.”
(Osman Lins, em carta ao amigo e escritor Hermilo Borba Filho, em 7 de fevereiro de 1969, E viva a vida!, org. Nelson Luís Barbosa.) -
“Enquanto dos morros só se ouviam os sons do samba, parecia não haver problema. Mas agora se ouvem os tiros. Não se trata de uma guerra civil, como às vezes se pensa, mas de uma guerra pós-moderna, econômica, que depende das artes bélicas mas também das leis do mercado, é um tipo de comércio. Por isso não há solução mágica à vista. Sabe-se que é preciso destruir as ‘vanguardas’ – os que praticam barbaridades, os traficantes de drogas – numa operação de força implacável. Exterminá-los, porém, talvez seja mais fácil do que desmontar o circuito econômico que os sustenta e cujas pontas – a produção e o consumo – não estão nas favelas.
A experiência relatada neste livro mostra que nenhuma operação de força fará sentido se a expulsão da minoria delinquente não se fizer acompanhar de uma ação de cidadania que incorpore socialmente a massa de excluídos do império – no caso, da república. Será uma questão de distribuição: justiça social para muitos.”
(Zuenir Ventura, Cidade partida.) -
“A palavra que se escreve, tão importante quanto aquela que se fala, é um registro duradouro da experiência humana. A escrita armazena os saberes, evitando começar do zero, a todo o tempo; acumula os fatos da história, acompanhados a partir da gravação em um suporte.”
(Nilma Lacerda, Pelas águas da escrita – Diário de viagem.) -
“Para formar cidadãos críticos e independentes, difíceis de manipular, em permanente mobilização espiritual e com uma imaginação inquieta, nada melhor do que bons romances. […] Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante grave, alheio à paixão e ao erotismo, o mundo sem romances, esse pesadelo que procuro delinear, teria como traço principal o conformismo, a submissão generalizada dos seres humanos ao estabelecido. Também nesse sentido seria um mundo animal.”
(Mário Vargas Llosa [1936-2025], “É possível pensar o mundo moderno sem o romance?”, A cultura do romance.) -
“A ambição do romance é desmedida, assim como a capacidade do autor de fazer-se jus. Mede-se o Grande sertão: veredas é pela Ilíada, pelo Quixote, pelo Ulysses de James Joyce. O que a obra rosiana tem de especial é a amplitude do tempo e do espaço, replicada e traduzida na amplitude da experimentação de linguagem do narrador, o ex-jagunço Riobaldo, apelidado Tatarana. O sertão é o mundo, diz ele. […] Ler Grande sertão: veredas não é só conhecer o maior romance da língua portuguesa; é ter uma experiência transformadora – da consciência de si mesmo e das possibilidades de investigar a condição humana por meio do idioma.”
(Eloésio Paulo, 201 romances brasileiros em 5 minutos cada.) -
“Poucos escrevem como um arquiteto constrói: primeiro esboçando projeto e considerando-o detalhadamente. A maioria escreve da mesma maneira com que jogamos dominó. Nesse jogo, às vezes segundo uma intenção, às vezes por mero acaso, uma peça se encaixa na outra, e o mesmo se dá com o encadeamento e a conexão de suas frases. Alguns sabem apenas de modo aproximado que figura terá o conjunto e aonde chegará o que escrevem. Muitos não sabem nem isso, mas escrevem como os pólipos de corais constroem: uma frase se encaixa em outra frase, encaminhando-se para onde Deus quiser. A vida da ‘atualidade’ é uma grande galopada: na literatura ela se manifesta por sua extrema frivolidade e desleixo.”
(Arthur Schopenhauer, A arte de escrever.)) -
“Maus leitores me perguntaram se eu estava drogado quando escrevi alguns de meus trabalhos. Mas isso mostra que eles não sabem nada sobre literatura ou drogas. Para ser um bom escritor, você tem que estar absolutamente lúcido em cada momento em que escreve, e com boa saúde. […] A criação literária, para mim, requer boa saúde.”
(Gabriel García Márquez, em Os escritores 2 – As históricas entrevistas da Paris Review.) -
“A Semana de 22 foi São Paulo interrogando o Brasil como se diante do espelho da madrasta malvada. Mário de Andrade inverteu a equação: pôs o Brasil a interrogar São Paulo, ou seja, o pensamento selvagem amolando nosso arremedo de civilização europeia.
Macunaíma é, em primeiro lugar, uma festa da linguagem. Nele o escritor despejou, numa escrita febril que consta ter durando menos de um mês, sua verdadeira enciclopédia do folclore brasileiro, coletada ao longo de anos de pesquisa.”
(Eloésio Paulo, 201 romances brasileiros em 5 minutos cada.)