Bem no alvo

Citações de diversos autores

  • “Fechei o livro. Ele não resistiu. Apenas sorriu com suas folhas. E eu, antes de deixá-lo na prateleira onde o havia encontrado, sussurrei:

    ‘Sei que sempre existirá. Um dia, terá um título. Que esse dia demore. E que você cresça ainda mais.’

    Quando saí, o sino da igreja ainda cantava. Mas era diferente agora. Como se o som também tivesse lido o livro comigo. E talvez tivesse sido ele – o sino – quem escrevera a primeira frase.”

    (Lara Vaz-Tostes, Por dentro, de onde os nomes nascem.)
  • “A que nos referimos quando falamos da forma de uma história? Referimo-nos em primeiro lugar à sua estrutura, isto é, ao desenvolvimento da narração; à escolha desta ou daquela linha, à escolha das personagens e ao uso que o autor delas faz, à sua interação, aos diferentes temas, às linhas temática e à sua intersecção nos diversos movimentos que o autor introduz na ação para produzir este ou aquele efeito direto ou indireto, assim como à preparação de efeitos e impressões. Numa palavra, referimo-nos ao esquema da obra de arte. Isto é a estrutura.

           Outro aspecto da forma é o estilo, isto é, o modo de funcionamento da estrutura; através do estilo, vemos as peculiaridades do autor, os seus maneirismos, os seus inúmeros e particulares truques. Se o seu estilo é vívido, veremos o tipo de imagens que evoca, as descrições que utiliza, o modo como progride; e se emprega comparações, veremos como usa e varia os recursos retóricos da metáfora e do símile, e as suas diferentes combinações. O efeito do estilo é a chave da literatura: é uma chave mágica para entender Dickens, Gógol, Flaubert, Tolstoi e todos nos grandes mestres. Forma (estrutura e estilo) = Assunto: o porquê e o como = o quê.”

    (Vladimir Nabokov, Aulas de literatura.)
  • Em texto original, arrebatador, de imenso e destemido fôlego argumentativo, o escritor e professor de Filosofia do Direito na UFMG Andityas Matos critica a vaidade e os enganos do chamado mundo literário. Vale a pena – e muito – ler o artigo dele.

    (Acesse aqui o texto de Andityas Matos, ‘Indelicadeza’, jornal Rascunho, junho de 2025.)

  • “Gustave Flaubert definiu com clareza o ideal do romance quando disse que, tal como Deus no seu mundo, o autor, no seu livro, deve estar em todo o lado e em nenhum, invisível e onipresente. Existem várias obras importante em que a presença do autor é tão discreta como Flaubert pretendia, ainda que nem ele tenha alcançado esse ideal em Madame Bovary. Mas mesmo nas obras em que o autor é idealmente discreto, encontra-se disseminado por todo o livro, de modo que a sua própria ausência se transforma numa espécie de radiante presença. Como se diz em francês, il brille par son absence – ‘brilha pela sua ausência’.”

    (Vladimir Nabokov, Aulas de literatura.)

  • “Há três pontos de vista segundo os quais um escritor pode ser considerado: pode ser considerado um contador de histórias, um professor e um encantador. Um grande escritor combina os três – contador de histórias, professor, encantador –, mas é o encantador que há nele que predomina e o torna um grande escritor.”

    (Vladimir Nabokov, “Bons leitores e bons escritores”, Aulas de literatura.)

  • “O exemplo mais conhecido dos processos literários de Kafka é A metamorfose. Nós temos de viver a experiência de Gregor Samsa, quando certa manhã esperta transformado em inseto gigantesco. Isso contradiz, naturalmente, todas as leis da nossa experiência. Contudo, considerando-se a vida que este jovem leva e as relações no seio da família, essa imagem do inseto nojento torna-se verdadeira. ‘Eu me sinto miserável como um inseto’, isso se pode dizer em português, da mesma forma como em alemão. Essa visão imaginativa contida na língua é para o expressionismo a verdadeira, a mais profunda. Kafka leva a metáfora a sério, riscando a palavrinha ‘como’: ele não diz ‘eu me sinto como um inseto’, ele diz ‘eu sou um inseto”. Transforma a metáfora em realidade.”

    (Anatol Rosenfeld, “Kafka e o romance moderno”, Letras e leituras.)

  • “Será então impossível aos homens viverem em paz neste mundo tão belo debaixo deste incomensurável céu estrelado? Como podem eles, num lugar como este, guardar sentimentos de ódio e de vingança e a ânsia de destruir seus semelhantes? Todo o mal que há no coração humano devia desaparecer ao contato com a natureza, esta é a expressão mais imediata do belo e do bom.”

    (Leão Tolstói, em trecho de A invasão citado por Henry Thomas/Dana Lee Thomas, em Vidas de grandes romancistas. Esse livro de contos, “seu primeiro grito de protesto contra o militarismo”, foi publicado em 1852, quando Tolstói estava com 24 anos.)

  • “O criminoso que, ao cometer seu crime, pôs sua autoconservação acima de tudo, tem na verdade um eu mais fraco e instável, e o criminoso contumaz é um débil.”

    (Adorno/Horkheimer, Dialética do esclarecimento.)