Do pomar

Frases e trechos de livros de Hugo Almeida

  • “O Carvalho continua igual. Mudo e um homem estranho. Todo secreto. A única novidade é que comprou um aquário com uns peixinhos, às vezes fica um tempão olhando, meio longe. Não posso falar mais do que isso dele. Ainda bem que tem o Renezinho para alegrar os meus dias. Veja essa dele. ‘Mãe, o que é mansumilde?’ ‘Onde você ouviu isso, meu filho?’ ‘É lá na escola que a gente reza. Assim, quer ver: Meu Jesus mansumilde de coração fazei meu coração semelhante ao vosso.’ Eu ri; ele brigou. “Por que a senhora está rindo, contei piada porum-acaso?’ Fiquei séria e expliquei: ‘São duas palavras, René: manso e humilde, quer dizer bom e que não se considera importante.’ ‘E Jesus não era importante não?’ Tive de explicar tudo de novo mas ele não esperou eu terminar e falou ‘tá, tá, já entendi’. Depois, outro dia, ele chegou perto de mim e perguntou: ‘Mamãe, o papai é manso e humilde?’.”


    (Níobe, personagem de Mil corações solitários, de H.A., em carta à mãe.)
  • “Suas palavras me abrigam do frio. Não pare nunca de me escrever, ainda que um dia eu peça, ainda que eu fique cega – minha amiga leria para mim ou eu aprenderia braile. Você vai me escrever sempre, não vai? Assim, esses versos soltos, loucos, como diz, como só você sabe escrever. Não tenha medo, Harley, não guarde o seu sorriso, não abafe o coração. O que sentimos não pode ser pecado. Eu não sabia que você também sentia o que eu sentia. Confesso, Timo: tenho medo, o coração está enlouquecido. Culpa? Meu sangue é fogo líquido. Queima o corpo inteiro, a alma já se incendiou. Vontade louca de escrever e não mais parar, de gritar Amor, meu Amor. Aí o telefone toca.”


    (Laura, personagem do Vale das ameixas, de H.A.)

  • “Copo na mão, René falou de seus tempos de exílio, de clandestinidade, de perigos por que passou – tudo baseado em livros de outros retornados –, sua experiência não tinha nada de marcante. Na festa, tentou impressionar a reduzida plateia, mas não mencionou o movimento dos professores nem suas ligações com o governador. Aos olhos de Ana, que ele nem sequer vira, pareceu o herói. Ela telefonou no outro dia e exigiu segredo. Discrição, aliás, retribuída. A paixão inquietou a moça durante sete dias e, no mês seguinte, fizeram a viagem que mudou a vida de Ana.”


    (Do romance Mil corações solitários, de H.A.)

  • “Agora eu fico aqui com umas perguntas para fazer e não sei para quem. Ah, se a Senhora pudesse me responder essas questões de hora. O Carvalho, nem pensar. Mãe, olha só a minha situação: nem a Senhora, nem o meu marido, nem o Padre – ninguém pode me ajudar. Mas alguém tem de aparecer senão eu não posso voltar lá no médico para ele fazer o tal de toque e os exames todo mês como ele avisou.”


    (Níobe, personagem de Mil corações solitários, de H.A., em carta à mãe.)

  • “Alguns meses antes de deixar São Paulo por Belo Horizonte, passei por um garoto com uma caixa de engraxate no ombro, numa rua do centro. Ele dizia para o ar, sem olhar para mim, para ninguém, Vamos engraçar. Vamos. Parei e pedi uma graça nos meus pés. Quantos você já engraxou hoje? Silêncio. E a voz surda, quase não ouvi: O senhor é o primeiro. Eram cinco da tarde.”


    (Harley, o Timo, personagem e narrador do romance Vale das ameixas, de H.A.)
  • Nem sei, Mana, se escrever me faz bem. (Tem hora que sim.) Não sei mesmo se escrever, inventar histórias, compensa. Veja: lá em casa só você não tem essa mania (ou seria loucura?) e, por isso mesmo, é a mais feliz, a ‘mais normal’, solta, espontânea. Você não escreve. Vive. E basta. Sabia que a mamãe faz cartas (eu roubei algumas) pra mãe dela até hoje? E a vovó morreu antes de eu nascer… O ‘papai’ se tranca naquele escritório-esconderijo e bate à máquina (daí esse meu ‘defeito’?) a noite toda, às vezes até de luz apagada.

    Imagino então o seguinte: uma mistura do que estou escrevendo com as cartas da mamãe, o que o papai escreve (seja lá o que for; de tudo é possível extrair poesia e ficção, até de contas e relatórios, que deve ser o caso dele) e alguma coisa sua, claro (o que você anda fazendo?). Já pensou que livro? A melhor história é a real. Eu penso nisso e me perco, acho tudo um absurdo e, quando durmo, o absurdo aparece de novo e bem maior.

    Ontem mesmo sonhei com uma mendiga que ‘mora’ numa esquina aqui perto de casa, na rua Avanhandava (gosto desse nome), quase em frente a um restaurante que já foi de luxo e ainda serve bem. No sonho, ela chegou toda imunda e rasgada perto de mim na porta do prédio – era noite, fazia frio e ventava – e me pediu ‘um pouso’. A mulher, chamada pelo pessoal por aqui de ‘Maluquinha’ – fala sozi­nha sem parar –, insistia em entrar comigo. ‘A casa não é minha’, eu dizia. ‘Eu sei que a Bel viajou’, ela respondia. ‘Não vou te amolá, durmo num canto da área.’ E eu, Mana, sem jeito: ‘Por favor, minha senhora, a casa não é minha, já disse…’.  Ela calou um pouco – parece que tinha desistido – e pediu um trocado. ‘Agora não tenho’, menti.

    ‘Então, me dá umas folhas do seu jornal aí…’ Gelei. Ah, ma­ninha, eu que sempre pensei que fosse um sujeito desprendido, bom, justo e tudo mais, sabe que titubeei em dar o jornal pra mendiga se cobrir? Lembrei que havia coisa que eu ainda queria ler, uns artigos que pensei em recortar e guardar. Ela percebeu meu vacilo. ‘Nem o jornal, moço…’ Dei todo. Tomei o elevador com vergonha de mim mesmo, já quentinho ali dentro, livre do vento. Acho que se não tivesse sido sonho (ou pesa­delo?) teria acontecido exatamente do mesmo jeito, eu não deixaria a mulher entrar e também relutaria em dar o jornal.”


    (René, em carta à irmã, Ana, personagens de Mil corações solitários, de H.A.)
  • “Leitores médios e críticos apressados consideraram o ro­mance de Osman Lins difícil e hermético. Hermético? Esse é um conceito relativo. O poeta João Cabral de Melo Neto disse numa entrevista: ‘O hermetismo depende mais do leitor do que do autor’. Em outro romance, A rainha dos cárceres da Gré­cia, o narrador osmaniano cita uma frase de Sartre – a obra só existe no nível de capacidade do leitor.”


    (H.A., “Infinito, eternidade e amor em Avalovara”, A voz dos sinos – O sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins.)
  • Neste ensaio livre, bem pouco acadêmico […], não pretendo defender o ponto de vista de que Osman Lins fez apologia do sagrado com a literatura. Não. O sagrado em sua obra coexiste com os tormentos da vida na Terra. Tampouco o escritor foi irônico com o sagrado ou alguma religião, ao contrário de Sartre, por exemplo – o narrador de A náusea afirma: “Nas igrejas, à luz das velas, um homem bebe vinho diante das mulheres ajoelhadas”. O sagrado é tratado nos livros de Osman Lins com respeito e convive com os mistérios, as lutas e limitações da vida humana. Há muitos mistérios sagrados escondidos no que ele escreveu. Em literatura, esconder e ocultar não são sinônimos. Ocultar é impedir a visão para sempre. Esconder é despertar o interesse pela busca, pela descoberta.”


    (H.A., “Elos sagrados, laços femininos e amorosos”, Apresentação do ensaio A voz dos sinos – O sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins.)