Do pomar

Frases e trechos de livros de Hugo Almeida

  • Neste ensaio livre, bem pouco acadêmico […], não pretendo defender o ponto de vista de que Osman Lins fez apologia do sagrado com a literatura. Não. O sagrado em sua obra coexiste com os tormentos da vida na Terra. Tampouco o escritor foi irônico com o sagrado ou alguma religião, ao contrário de Sartre, por exemplo – o narrador de A náusea afirma: “Nas igrejas, à luz das velas, um homem bebe vinho diante das mulheres ajoelhadas”. O sagrado é tratado nos livros de Osman Lins com respeito e convive com os mistérios, as lutas e limitações da vida humana. Há muitos mistérios sagrados escondidos no que ele escreveu. Em literatura, esconder e ocultar não são sinônimos. Ocultar é impedir a visão para sempre. Esconder é despertar o interesse pela busca, pela descoberta.”


    (H.A., “Elos sagrados, laços femininos e amorosos”, Apresentação do ensaio A voz dos sinos – O sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins.)
  • “Tive que abrir tua carta. Aninha não anda bem. Ela não ia sacar nada do que você escreveu. Está noutro mundo, cara. Mas, ao contrário do que deve pensar, não tenho absolutamente nada com a situação. Como você ainda não me conhece, tua opinião sobre mim não me grila.”


    (Tâmara, a Tã, em carta a René, irmão de Ana, personagens de Mil corações solitários, de H.A.)
  • “Minha vida de casada até agora então continua igual de solteira. Só que eu não tenho aqui as minhas amigas daí, nem a Senhora perto nem os meninos, eles estão bons? Um beijo para cada um de muita sau­dade. Por favor não mostra a carta para ninguém viu porque tem muita coisa que eles não podem nem pensar. É por isso que mando essa carta para a casa da tia Lia que ela é a irmã mais amiga sua e pode até ler tudo se quiser e a Senhora deixar. Não pense que vou acabar logo não, ainda tem um mundo de coisas para dizer e perguntar porque até agora eu nem perguntei nada, não foi?”


    (Níobe, personagem de Mil corações solitários, de H.A., em carta à mãe.)
  • “Eu estou no meu corpo, conhece este verso do Murilo Mendes? Sabe que eu nunca tinha lido nada dele e sonhei com ele quando morreu e no outro dia vi a foto no jornal e era igualzinho o homem que eu tinha visto no sonho? (Recupera o fôlego.) Agora foi com a tia Lia, irmã da mamãe. Ela me disse para eu criar meu filho com toda a liberdade. E vou criar, sim, cara. Cem por cento. (Voz mais forte.) Você está vendo isto aqui? (Se afasta, mostra o corpo, separando as mãos, a partir do peito, para baixo.) Pois é, minha luta está aqui dentro. Só, só. E só. Olha o tamanho da minha briga (dedo na cabeça). É aqui a minha guerra, excelência! Só. Tem um fio de alta tensão, daqui, tun-tun (bate no coração), aqui (cabeça). Daqui-aqui. Nesse pedaço fica o meu front. Não quero o mundo, não, cara. Quero nada não. Quero eu, eu pra mim, sacou?, e pro neném, você não compreende, René? Eu fui à luta pra saber qual era. Tô sabendo. Quer saber? Deus comigo. Deus contigo, Deus com todos. A noite (afasta René). Eu cuido dele sozinha (bate a porta). De-pu-ta-di-nho de borra!”


    (Ana, personagem de Mil corações solitários, de H.A.)
  • “Já no tempo de alfaiate, Zacarias, o velho Harley parecia entender a semelhança dessa profissão com a do escritor. Ambos enfrentam a mesma faina, a mesma feliz agonia de trabalhar com fios leves, da memória ou fantasia, e acertar a proporção dos cortes, o ajuste nas dobras e curvas, não exceder nas medidas. Para isso existe a tesoura, existe o ponto. Às vezes as mãos tremem, do escritor, do alfaiate. Texto e terno têm o talhe tênue, o tenso termo. Não adianta ter pressa nem usar tecido mais barato, cai mal no corpo, amassa fácil, fácil e desfia logo. É jogar dinheiro fora. Melhor uma casimira inglesa, coisa garantida. De nada serve agulha perita, se a linha for ordinária. Da mesma forma, só vale a pena escrever histórias bem amarradas – como se diz, rede firme (nunca um laço lasso), para resistir ao tempo. O texto que se quer literário, li não me lembro mais em que autor, deve guardar segredos e ser igual a u’a máquina bem azeitada, que funciona sem ruídos, nunca engrenagem seca, enferrujada, rangendo, ferro com ferro, como se vê tanto por aí, em livros de gente nova e até de autor consagrado (que falta faz um amigo para ler os originais com rigor). Sem esmero, exibe-se o banal. As palavras têm sexo, se atraem. O casamento delas é o que Machado chamava de estilo. Texto é textura, leveza, fluidez. Trabalho de formiga, aranha e abelha. E precisa ter calor, inquietação, dor. O resto é fast-food.”


    (Túlio, personagem de Vale das ameixas, de H.A.)
  • “Os alemães invadiam meu país. Em 6 de agosto de 1914, Madame Curie escreve de Paris para as filhas na Bretanha: os alemães atravessaram a Bélgica dando combates. A valente Belgicazinha não admitiu que passassem sem resistência… Todos os franceses estão cheios de esperanças e acham que a luta, embora rija, acabará bem. A Polônia foi ocupada pelos alemães. Que restará depois da passagem deles? Não sei nada da nossa família.

    Um mundo louco correndo para a catástrofe, como disse o tio Oskar. Tempos duros, vivíamos com muito menos do que o indispensável. Fome era prato de todo dia. No pão havia mais serragem que farinha. Açúcar e carne? Nem o cheiro. Uma noite meu tio nos levou pão preto e salame, ah, meu Deus, nunca vou esquecer, nunca comi alguma coisa com tanto apetite. Dinheiro já não valia nada, era um pedaço de papel. Aprendi não a economizar, mas a sufocar as tentações. Aprendi a viver em regime de carência. Eu me tornava rapazinho. Incentivado por meu tio, tive a alegre ilusão de compor versos. Papel e lápis me bastavam, além do alimento mínimo para sobreviver. Meus poemas da juventude ficaram lá, hoje são cinzas.”


    (Harley, narrador e personagem de Vale das ameixas, de H.A.)
  • “O assassinato de minha filha me mata aos poucos há trinta anos. O covarde crime e o sumiço do corpo. Se alguém ainda sabe, ninguém diz onde está. Onde foi jogado, enterrado ou largado. Sei apenas que Laís foi executada como se chamasse Celeste, sei que ela estapeou o algoz e não revelou seu verdadeiro nome – foi ele mesmo, esse assassino anônimo, quem contou isso anos depois a um jornal. Laís sempre foi forte, corajosa, menina de caráter. Queria justiça, liberdade, democracia. Era isso que a movia.”


    (Mãe de Laís/Celeste, personagem do romance Vale das ameixas, da H.A.)
  • “O sujeito foi afável e prestativo. Poderia, se eu quisesse, conseguir uma escritura num cartório de um amigo. Mas teria um custo extra. E talvez não desse certo. Não aceitei, não só pelo custo, mas porque não aceito fraudes. Admiro tudo bem feito, exceto crime.”


    (Harley, personagem de Vale das ameixas, de H.A.)