Uns toques

Citações para jovens escritores

  • “Recorro à música para aliviar saudade, escorrego a caneta no papel, o sentimento se espalha […] Estou pétala. As pétalas não resistem à queda. Eu resisto, pois creio não ser a minha vez, já que pouco sei; tenho muito a aprender […] Preciso sobreviver para aprender a viver. […] Duas taças de vinho e um rodopio pela sala. Meu coração partido se debruça na janela da esperança.”

    (Narradora de Prisão, flores e luar, de Carla Dias.)

  • “Uma das coisas mais importante da ficção literária é a possibilidade de dar voz, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada. […] Sob este aspecto, João Antônio faz para as esferas malditas da sociedade urbana o que Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão, isto é, elabora uma linguagem que parece brotar espontaneamente do meio em que é usada, mas na verdade se torna língua geral dos homens, por ser fruto de uma estilização eficiente.”

    (Antonio Candido, “Na noite enxovalhada”, O albatroz e o chinês.)

  • O crime do padre Amaro é um romance naturalista ortodoxo, inclusive na facilidade de leitura, pois corresponde ao que há de mais visível em nosso modo de ser. Daí a naturalidade, que caracteriza também a escrita e nos faz sentir dentro do universo ficcional.”

    (Antonio Candido, “Eça de Queiroz passado e presente”, O albatroz e o chinês.)

  • “Quais são as leis que regem a formação das famílias de palavras? Com maior frequência, novos fenômenos ou objetos são designados em função de atributos que não lhes são essenciais, de modo que o nome não expressa a verdadeira natureza de coisa nomeada. Como um nome nunca é um conceito quando aparece pela primeira vez, em geral é, a um só tempo, muito limitado e muito amplo. Por exemplo, a palavra russa que designa vaca significava, inicialmente, ‘que tem chifres’, e a palavra rato significava ‘ladrão’. Mas uma vaca é muito mais do que chifres, assim como um rato não é apenas um ladrão; assim, seus nomes são demasiado limitados. Por outro lado, são amplos demais, uma vez que os mesmos epítetos podem ser aplicados – como de fato são, em algumas outras línguas – a um certo número de outras criaturas. O resultado é uma luta incessante, no âmbito da língua em desenvolvimento, entre o pensamento conceitual e o legado do pensamento primitivo por complexos. O nome criado por um complexo, com base em um atributo, entra em conflito com o conceito que passou a representar. Na luta entre o conceito e a imagem que deu origem ao nome, a imagem gradualmente desaparece; desaparece da consciência e da memória, e o significado original da palavra é finalmente obliterado. Anos atrás, toda tinta de escrever era preta, e a palavra russa para tinta refere-se a essa cor. Mas isso não impede que atualmente falemos do ‘negro’ vermelho, verde ou azul, sem perceber a incoerência da combinação.”

    (L. S. Vigotski, Pensamento e linguagem.)

  • “Raramente houve na literatura brasileira uma estreia tão madura como a de Alexandra d’Orsi, escritora pronta. Difícil acreditar, mas este surpreendente Dos meridianos de Eva é o seu primeiro livro. São contos de dor que cura a alma, textos por vezes aveludados, de aveludada ira, doces de inquieta e altiva feminilidade e, ao fundo, parecem soar os acordes de um violino, ora calmo, ora agitado, executado por um músico virtuoso. A música paira nos textos. E o tom poético, no ritmo, léxico e na sintaxe, modula todos os contos, com imagens, frases e palavras inusitadas. A autora vê sempre as coisas simples ou complexas por um ângulo artístico e cria palavras divertidas, como a que significa enorme. E este é um ponto fundamental: no seu texto não há lugar para o lugar-comum.”

    (Hugo Almeida, no prefácio de Dos meridianos de Eva, que será lançado no próximo sábado, 25 de outubro de 2025, no Canto Madalena, R. Medeiros de Albuquerque, 471, em São Paulo, das 17 às 20 horas, juntamente com a nova edição de Mil corações solitários, de H.A.)

  • “A palavra dos homens é o material mais duradouro. Se um poeta deu corpo à sua sensação passageira com as palavras mais apropriadas, aquela sensação vive através de séculos nessas palavras e é despertada novamente em cada leitor receptivo.”

    (Arthur Schopenhauer, A arte de escrever.)
  • “Apenas a partir da convicção da verdade e importância de nossos pensamentos surge o entusiasmo que é exigido para buscar sempre, com incansável perseverança, a expressão mais clara, mais bela e mais vigorosa – da mesma maneira que recipientes de prata e ouro são usados apenas para coisas sagradas ou obras de arte inestimáveis. É por isso que os antigos, cujos pensamentos formulados em suas próprias palavras já sobreviveram por milênios, e que merecem portanto o título honorífico de clássicos, escreveram com todo esmero. Dizem que Platão redigiu a introdução de sua República sete vezes, com diversas modificações.”

    (Arthur Schopenhauer, A arte de escrever.)

  • “Não há nada mais fácil do que escrever de tal maneira que ninguém entenda; em compensação, nada mais difícil do que expressar pensamentos significativos de modo que todos os compreendam. […]  A primeira regra do bom estilo, uma regra que praticamente se basta sozinha, é que se tenha algo a dizer.”

    (Arthur Schopenhauer, A arte de escrever.)